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segunda-feira, 14 de maio de 2018

O FILME "O PROCESSO" MOSTRA AS ENTRANHAS PUTREFADAS DO GOLPE



por Urariano Mota*
Às vesperas da votação do processo de Impeachman eu passava cartas aos parlamentares, embora acredite que nenhum deles leu nenhuma. Nessas cartas eu alertava. Eu dizia. O Mundo os está vendo. O mundo e a história. Se votarem a favor do impeachman passarão para a história como traidores da Pátria, e se queimarão aos olhos do Brasil e do mundo. Pois hoje aqui está o filme "O PROCESSO" que será visto no mundo inteiro, e mostrará a cara dos políticos safados, vagabundos, traidores da pátria que receberam aquele dinheirinho em nome da FIESP para pisotear os votos da maioria da população Brasileira. Vós sois TRAIDORES e suas FUÇAS aparecerão lá nas telas dando o voto traidor em nome de um monte de coisas que expressam sua falsidade, sua covardia, sua desfaçatez, sua hipocrisia, sua condição de políticos desonestos. Que sejam enterrados e jamais voltem a política. Que o povo vote no PT ou no PC do B e jamais em VAGABUNDOS, que fazem da política um meio de enriquecer.

Ocorreu ontem em várias partes do Brasil a pré-estreia do filme de O Processo. O cinema São Luiz em Recife estava lotado, como em suas melhores noites, com todas idades e classes sociais. Estávamos jovens e muito jovens, maduros e muito maduros, a cantar e gritar várias bandeiras, das quais a mais unitária foi #LulaLivre.

A agitação no público era tamanha, que gritos se ouviam até mesmo quando as luzes no cinema se apagaram. Quanta rebeldia reprimida. As vozes somente pararam quando alguém gritou: “quem fizer barulho é golpista!”. Silêncio na plateia. Então o documentário começou.


Filme sobre golpe leva o prêmio do público no Festival de Berlim.
No momento em que o golpe no Brasil tenta, por meio do ministro Mendonça Filho, censurar disciplinas acadêmicas sobre sobre a farsa do impeachment, o documentário "O processo", que narra os bastidores da conspiração de políticos corruptos contra a presidente honesta Dilma Rousseff, venceu o grande prêmio do público no Festival de Berlim, um dos maiores do cinema mundial.

Agora, enquanto escrevo, pesquiso e leio uma sinopse onde se fala: “O documentário acompanha a crise política que afeta o Brasil desde 2013 sem nenhum tipo de abordagem direta, como entrevistas ou intervenções nos acontecimentos. A diretora Maria Augusta Ramos passou meses no Planalto e no Congresso Nacional captando imagens sobre votações e discussões que culminaram com a destituição da presidenta Dilma Rousseff do cargo”. E mais descubro. Na estreia mundial de O Processo, no Festival de Berlim, o filme foi aplaudido sob gritos de “bravos”, o que nunca havia acontecido com um filme antes em terra alemãs. Em Portugal, quando recebeu o prêmio de melhor longa-metragem no festival de cinema IndieLisboa, o júri assim falou sobre as razões da escolha: “Pela sua montagem aberta, que é fluente e elegante. Trata-se de um drama político contado através da narrativa clássica sem cair no classicismo gramatical e formal.”


Mas a pré-estreia no Recife, bem podemos acrescentar outras razões de público e amantes do cinema. Tanto na abertura, quando um voo de helicóptero sobre Brasília nos mostra os lados de amarelos e vermelhos em confronto sobre a terra, até atingir as cenas finais, atravessa a gente um sentimento de indignação e afeto profundo pela memória da militância contra o impeachment. Então sabemos que O Processo é um dos melhores documentários do Brasil até hoje. E se me fazem um desconto do entusiasmo, pois o filme continua dentro da cabeça até agora, ouso escrever mais claro: O Processo é um dos melhores documentários do mundo. Entendam as razões.

Quando o debate se abriu para o público, pude falar no microfone em meu natural pouco eloquente. Na medida do que lembro de ontem à noite, consegui falar: “Ao ver os últimos 10 minutos, quando se completa o golpe, e a digna representação dos parlamentares do PCdoB e do PT que discursaram contra o impeachment, senti que O Processo devia se chamar O Pesadelo. E pude perceber que o documentário no Brasil, que já havia atingido um ponto culminante com Eduardo Coutinho, e passa pelos belos filmes de Vladimir Carvalho, ganhou um novo caminho com esse documentário. De todas as maneiras se faz arte. Neste, o que parecia ser uma grande reportagem se fez arte. Acredito que este é um filme que sobreviverá a estes malditos anos. Se me permite uma sugestão, só lhe peço que não siga o roteiro de alguns estetas da reportagem da imprensa, que lhe pedem o relato do método ou técnicas do filme. Para mim, seria como transformar o quadro Lição de Anatomia, para pegar a experiência holandesa da diretora, e limitá-lo à descrição do desenho, tons, sombra e tintas. Transformar a arte em um verdadeiro cadáver da composição. Creio que de modo mais simples você poderá dizer que fez esse filme com intensa paixão. E com imenso talento, como acabamos de ver”.

O que disse no microfone ontem, bem ou mal, bem e mal no calor da emoção, continuo aqui: os discursos da bancada de bravos que resiste, no dia da conclusão do impeachment, o discurso de Dilma ao se despedir, o rosto de Lula no plenário, nessas imagens pudemos ver o Brasil de hoje, com o pior parlamento da nossa história, com o presidente mais entreguista que tivemos, e a desgraça anunciada nos discursos que se cumpre com a perda de direitos inalienáveis do povo, como saúde e trabalho.

Já antes, a militante e professora Isa Ferreira me perguntou o que fazer diante dessas agressões contra os brasileiros, e se eu achava que sairíamos desta e como sair. Quem sou eu para achar, se me encontro tão perdido? Mas na hora lhe respondi que não sei como, mas que se houver uma saída popular, talvez não alcance os nosso dias. Enquanto isso, não poderemos submergir à depressão e desespero desta má hora. Cada um que lute à sua maneira, da melhor forma possível.

Ao voltar para casa, o motorista do Uber, que é músico e trabalho pela madrugada a dirigir um carro, me falou que vivemos hoje uma distopia. É isso, sim, é isso, eu me falei para mim, surpreso da qualificação que o jovem trabalhador dá para o que vivemos. Então me veio à lembrança de novo de O Processo como O pesadelo. O nome de uma obra sempre vem depois. Nunca antes, como o batismo que damos a um filho.

Em uma ocasião, a diretora falou em entrevista: “Nós não sabemos para onde isso vai, e isso é angustiante e doloroso… Essa é a minha contribuição para esse momento que estamos vivendo”. Sem dúvida. O documentário de Maria Augusta Ramos realiza o seu presente deste infeliz momento. E mal pude dormir até a hora de escrever estas linhas.

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*Urariano Mota é jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude”.

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