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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

INDIOS - LIVRAI-NOS SENHOR DE TER SOBRE NOSSOS OMBROS O SANGUE DE NOSSOS IRMÃOS.

Caçador Uaiká
Rio Marauia - Alto Rio Negro AM

Receberam o nome de Índios, provávelmente porque Cristóvão Colombo pensou ter chegado às Indias quando chegou a essa nova terra que para êle era como que um novo planeta.


Parque Indígena do Xingu. Efeitos do Modo de Vida Urbano e da Urbanização sobre o Território Indígena (Resumo)
A criação do Parque do Xingu resultou de um longo processo de luta entre instituições do Estado brasileiro e setores da sociedade civil interessados no controle territorial e/ou privatização de terras. A superfície  do parque corresponde a uma pequena parcela da vasta região onde se encontrava presente, já no início do século XX, uma variedade significativa de etnias indígenas, localizadas mais especificadamente na bacia do alto rio Xingu, no estado brasileiro de Mato Grosso. Em 1961, foi criado oficialmente no Alto Xingu o Parque Nacional do Xingu que, em 1973, por força do Estatuto do Índio, foi alterado na sua condição jurídica para parque indígenaA ampliação do Parque Indígena do Xingu é atualmente uma das principais reivindicações de líderes indígenas endereçadas a Funai – Fundação Nacional do Índio. A partir deste fato, inicia-se a análise sobre os efeitos do processo de instauração do modo de vida urbano e da urbanização do território brasileiro na atual dinâmica sócio-espacial do Parque Indígena do Xingu.

Com uma cultura inteiramente diferente da nossa e com valores também muito diferentes, revelam que podem sim nos ensinar. Tem valores diferentes e na parte espiritual podem nos passar valores que deveríamos ter mas absortos que estamos na ilusão do mundo material, custamos a nosdar conta.

Em 18 de Janeiro de 2007, a FUNAI relatou ter confirmado a presença de 67 tribos não-contactadas no Brasil (com 32 confirmadas ), mais do que foi relatado em 2005. Com este aumento, o Brasil ultrapassou a ilha da Nova Guiné(dividida entre Indonésia e Papua Nova Guiné) como região com maior número de tribos não-contactadas (entretanto, números da Papua Nova Guiné não estão disponíveis). Grupos indígenas no Brasil, em especial as tribos isoladas, são frequentemente envolvidas em conflitos e estão ameaçadas por desmatamentos, por invasões e pelo descaso governamental. 
O Brasil é o país que possui o maior número de povos não-contactados em todo o mundo. As Terras Indígenas brasileiras que são reservadas exclusivamente para tribos isoladas, são as seguintes:
Índios guerreiros em aldeia isolada no sudoeste do município brasileiro de Feijó (AC).
As demais Terras Indígenas onde existe a presença de índios isolados, são as seguintes:
Índios isolados no estado brasileiro do Acre.



Durante a dança do Yamoricumã as Indias Suiá usam a vestimenta ritual chamada Uluri (mini-Tanga).

Feiticeiro dos índios Uaiká. -
Rio MARAUIA - ALTO NEGRO - AMAZONAS

India Surui - Rondônia -
Com colares de  tucúm e dentes de macaco.



ENTERREM MEU CORAÇÃO NO DELTA DO AMAZONAS 

Agradecimentos ao companheiro Claudio Ribeiro que nos enviou essa matéria.


Paulo Ramos Derengoski*

Quando o primeiro homem branco pôs os pés no litoral brasileiro – há quase quinhentos anos – recebeu, dos indiozinhos que se aproximaram sorrindo, um curioso presente: um cocar de penas brancas.
Meio envergonhado, ele retribuiu a oferta – e lhes deu um pesado sombreiro negro.


Tinham início as dolorosas relações entre “selvagens” e “civilizados”.
Começavam alegremente, terminariam mal. Pois dos cinco milhões de índios que naquela época viviam entre o Oiapoque e a barra do Chuí – entre o rio Javari e o Cabo de Santo Agostinho – hoje restam cerca de cem mil, na sua maioria desorientados, alquebrados, insanos, desdentados, entorpecidos, abobados.




Indio Ticuna com máscara em dia de festa.
Alto Solimões.



Foi na Amazônia que se desenvolveu a etapa mais dramática dessa destruição. Ali, em pleno Século das Luzes (2), um bando de molambentos se atirou sobre os indígenas, com o objetivo de se apossar de mão-de-obra barata para alimentar o monstro industrial da borracha.
Indio da tribo Uaiká datribo Makarimxinobetéri
Rio Marauia - Alto rio Negro - AM



A nação Waiká foi a primeira a receber o impacto. Sobre os Xirians caíram os abutres do ramo mercantil: mascates, comerciantes de armas e de cachaça. Os Guaharibos tiveram destruídas as habitações que constituíam a base de sua vida comunal primitiva – e se desintegraram.


Indio do povo Uaiká - Rio Marauia - Alto rio Negro AM
O massacre mais brutal foi nos vales do Juruá e do Purus, onde outrora se encontravam as maiores reservas de seringueiras do mundo. As nações Pano e Aruaque foram rapidamente dizimadas. Índios altivos arrojavam a fronte ao pó, diante da imensa superioridade do branco, de sua inteligência diabólica. 





Indios Uaiká preparando tubo para aspirar pó entorpecente.
Rio Marauia - Alto Rio Negro amazonas
Indios Yanomi - Rio Maturacá - Museu Indigena Salesiano.


Entrava em cena um especialista em matar índios: o “bugreiro”, capanga de tocaias e traições, aborto tardio do bandeirante predador, deus do jaguncedo.

Nos extensos vales do Tapajós e do Madeira, os Torás e os Munducurus tentaram constituir uma barreira ao avanço do branco. Também o povo Parintin cobrou um alto preço (em sangue) pela borracha, que um dia foi extraída da floresta para fabricar os pneus das limusines das grã-finas da Cote d’Azur – ou dos carros de combate que iriam rolar nas areias do Ryff africano.

Carijós, Xucurus, Potiguaras: deles só resta a memória. Contra os Timbiras travou-se uma luta prolongada, porque os índios se refugiavam na Serra Geral, de onde raramente saíam. Mas, quando se tornava difícil destruí-los pela guerra, eram atraídos para a periferia dos povoados sórdidos, onde as doenças e o álcool se encarregavam do resto.


Jovem India Suiá - Enfeitada para o cerimonial do YAMARICUMÃ
 Rio Suiá Missu - Reserva Indígena do Xingu.


Algumas nações foram jogadas contra outras, como os Crahós, que se especializaram em escravizar seus irmãos, para vendê-los aos brancos em troca de cachaça e sal. Somente os mais ariscos e alçados conseguiram sobreviver, como os Gaviões, que até hoje se escondem pelas margens do Tocantins.


No coração do Planalto Central, a nação Carajá foi das mais judiadas: os que restaram são atração turística na Ilha do Bananal, onde sacodem a bunda para fotografias coloridas.


Os ingênuos Xerentes – que chegaram a transformar d. Pedro II em seu “deus” - também desapareceram do mapa. No centro do país, ainda restam alguns Caiapós e Xavantes, que só sobreviveram por serem ferozes e arredios. E os Bororos, outrora notáveis pela robustez física, entraram em decadência.




Mocinha Txucahamei enfeitada para a festa do Jaboti -
Parque  nacional do Xingu.
No vasto pantanal do Mato Grosso viviam os Mbaiá-Guaicurús, os primeiros índios do continente a utilizar o cavalo como montaria. Aliados aos canoeiros Poiaguás, eles dominavam vasto território. Na guerra do Paraguai, chegaram a constituir batalhões, que lutaram ao lado dos brasileiros para impedir a penetração Guarani ao norte do rio Apa. Pois desses altivos cavaleiros restam hoje pouco mais do que dez indivíduos arrasados.



Tristes trópicos: Cadiveus, Guanás, Otis, Terenas, todos se acabaram. Alguns tomados de impulsos místicos alucinatórios, se suicidaram – ou fugiram em direção ao mar, numa ânsia louca de liberdade. Outros terminaram mendigando à beira das estradas asfaltadas do progresso, como os Botocudos, os Maxacalis e os Pataxós. No sul, os descendentes dos Cainguangues e dos Xoklengues se subdividiram em pequenas tribos, para fugir à penetração dos colonos.
Mulher Juruna decorando sua vasilha de barro.
Reserva indígena do Xingu.

Erro fatal: “bugreiros” profissionais foram contratados para extermina-los até à morte.







Mulheres Suiá socando milho - Reserva Indígena do Xingu.


Mas, não tenhamos ilusões... Apesar de todos os discursos (e artigos bonitos) estamos na antevéspera da descida do pano sobre a tragédia de nossas populações autóctones.

Poderoso Pajé - Tribo Kamayurã - Alto Xingu - MT
Os índios estão no fim. Em breve, deles só restará a memória: terão sido apagados como os poemas que o santo padre Anchieta – José do Brasil – um dia riscou nas areias das praias: varridos pelas ondas sempre fortes e renovadas do ódio, afogados pelo profundo mar da ignorância.

Preparo do Piqui Silvestre - Tribo indígena dos Cuicuros
 no Rio Curisevu - Parque Nacional do Xingu.

E quando raiar o milênio, quando alvorecer o século XXI entre as neblinas das florestas brasileiras, os índios já não poderão contemplar o brilho das espadas e a beleza dos estandartes.

Preparos para a festa do pequi
na aldeia dos índios Kuicúro no alto Xingu.
Nem ouvir o tropel empoeirado e colorido da morte.

(*) Paulo Ramos Derengoski é jornalista e agricultor em Santa Catarina.

Tribo Mehinaku - Alto Xingu
Publicado por “CADERNOS DO TERCEIRO MUNDO” - Edição Nº 117 – Dezembro de 1988 – Seção “Opinião”

(1) Alusão ao livro “Enterrem meu coração na curva do rio”
(2) Século XIX
Jovem índia Camaiurá em sua maloca - Parque Nacional do Xingu
Caçador Uaiká - rio Marauiá - Alto rio Negro - AM
Caçador Uiaká - Rio Marauia - Alto rio Negro Amazonas
Cocoti menino Laualapiti do rio Tuatuari com peixe Pacu flexado por ele - Reserva Indígena do Xingu.
Dança ritual YAMACURIMÃ executada pelos Suiá e Trumai no alto Xingu.
Reserva Indígena do Xingu
Dança ritual YAMARICUMÃ executada pelas mulheres Suiás e Trumai - Alto Xingu - Reserva Indígena do Xingu.
Dança ritual YAMARICUMÃ executada pelas mulheres Suiás e Trumai no Alto Xingu.
Reserva indígena do Xingu.
Indio Ticuna com máscara em dia de festa - alto Solimões
Indios Txucahamei - Parque Nacional do Xingu
Jovem índia Suiá - Parque Nacional do Xingu
Jovem índia Uiaká - Rio Marauia - Alto rio Negro Amazonas
Macuritza - Jovem índio da tribo dos Mehinaku
Rio Tuatuari - Parque Nacional do Xingu.
Menina moça Marúbo do rio Itui AM com pote de cerâmica.


Mocinha Suiá com flocos de mandioca. Reserva Indígena do Xingu

Menino Juruna Flexando - Reserva Indígena do Xingu
Menino Uaiká, da tribo Pukimabuetéri - Rio Marauia - Alto rio Negro - Amazonas - 2
Meninos Laualapiti com raposa doméstica - Reserva indígena do Xingu.
Mocinha da tribo dos Jurunas - Parque Nacional do Xingu
Mocinhas Iualapiti no rio Tuatuari - Reserva Indígena do Xingu.
Mocinhas Laualapiti no rio Tuatuari - Reserva indígena do Xingu
Museu do Indio - Manaus - AM
Têve, garoto Camaiurá pescando no rio Koluene - Reserva Indígena do Xingu.
Índia Uaiká confeccionando seu colar de missangas.
Rio Marauia - Alto rio Negro - AM
Durante a dança do Yamoricumã as Indias Suiá usam a vestimenta ritual chamada Uluri (mini-Tanga).
Indio Cinta Larga nas margens do Rio Aripuanã - Rondonia
Jovem India Suiá - Enfeitada para o cerimonial do YAMARICUMÃ
Rio Suiá Missu - Reserva Indígena do Xingu.

INDIOS DA AMÉRICA DO NORTE


AMOR A NATUREZA
______________________________________
Quem é o dono da pureza do ar e do resplendor da água?
(Seattle, chefe da nação Duwamish, do Estado de Washington, em resposta ao Presidente Franklin Pierce, dos EUA, em 1855, depois de receber a proposta do governo de comprar o território de seu povo)



Cacique Seattle é tida como uma profunda declaração de amor ao Meio Ambiente, brotada do coração puro e simples de um índio cheio de reconhecimento à Natureza por tudo de bom que ela dá ao homem. Eis a resposta:


A "CARTA" DO CACIQUE SEATTLE

Introdução: o cenário histórico

A equipe de Floresta Brasil fez uma pesquisa sobre a história da carta que o cacique Seattle teria mandado ao presidente norte-americano Franklin Pierce, em 1854, em resposta à proposta deste último de comprar terras que até então tinham “pertencido” à sua tribo.

Antes de continuarmos, parece oportuno observar que a palavra “chief”, da língua inglesa, tem como correspondente na língua portuguesa a palavra “cacique”. Assim, se estivermos falando português, parece mais adequado nos referirmos à personalidade que teria escrito a carta como “cacique Seattle”, e não "chefe Seattle". 

Um outro aspecto que resultou de nosso estudo é que descobrimos, para nossa surpresa, que é possível encontrar várias versões dessa "carta". O que imediatamente traz a dúvida: Qual das versões seria a “carta” verdadeira? Pois bem, continuando a pesquisa, descobrimos que muito provavelmente o cacique Seattle jamais escreveu carta alguma com o conteúdo que lhe é atribuído, ao presidente Franklin Pierce.

O que terá acontecido então? 

Pois bem: segundo as fontes que pesquisamos, os índios Duwamish habitavam a região onde atualmente se encontra o estado de Washington - no extremo Noroeste dos Estados Unidos, fazendo divisa com o Canadá. E a famosa "carta" parece ter sido, na verdade, um texto publicado em um jornal local baseado na inspirada reflexão que o cacique Seattle fez para sua tribo, reunida naquele deslumbrante cenário natural, sobre as relações do homem com a Natureza, em resposta à proposta presidencial, de compra de terra, trazida pessoalmente pelo recém-chegado encarregado de assuntos indígenas do governo norte-americano.

O primeiro registro conhecido sobre a fala do cacique Seattle parece ser um artigo publicado pelo Dr. Henry Smith, no Jornal Seattle Sunday Star, em 1887. O Dr.Smith teria estado presente quando do pronunciamento do Grande Cacique, tendo o texto do artigo se baseado nas anotações que seu autor teria feito na ocasião do discurso.

Para uma melhor compreensão do discurso em si um discurso cujo conteúdo e cujas palavras ainda hoje, passado mais de um século, soam tão sábias e profundas - resolvemos oferecer aos interessados no assunto 2 (dois) textos: 

- o primeiro texto traz a impressionante descrição que o Dr. Smith fez sobre o local onde o fato ocorreu, sobre a atitude dos ouvintes - de profundo silencio e atenção e, mais impressionante ainda, sobre a forte, solene e carismática personalidade do orador e, finalmente, sobre a forma com que a fala foi proferida. De fato, o cenário descrito faz com que nos perguntemos se aquele não foi um daqueles raros e mágicos momentos da história da humanidade em que um coração forte, sensível e inspirado, consegue verbalizar palavras que chegam fundo no coração de outros homens. Mesmo que estes outros homens, como nós, tomem conhecimento daquelas palavras muitos e muitos anos depois... Confirmando o que disse Seattle: “Minhas palavras são como as estrelas, que não empalidecem”

- o segundo texto é o pronunciamento do cacique propriamente dito. A versão que apresentamos é a tradução de uma das mais famosas versões divulgadas durante a década de 70. A foto do Grande Cacique Seattle (1787-1866) é de autoria de E.M.Sammis: seu original encontra-se na “Special Collection” da Universidade de Washington, sob o nº NA 1511.

Ambos os textos, do artigo do Dr. Henry A. Smithe e do pronunciamento em si, foram obtidos, em inglês, no site:


O texto do artigo do Dr. Henry Smith, que se encontra logo abaixo, foi traduzido pela equipe de Floresta Brasil diretamente do artigo original, publicado em inglês em 1887, que se encontra na seção em língua inglesa de nossa página (http://www.florestabrasil.org.br).


"O velho cacique Seattle era o maior índio que eu jamais havia visto. E o que tinha aparência mais nobre. Em seus mocassins, ele media mais de 1,80m, ombros largos, tórax amplo e traços finos. Seus olhos eram grandes, inteligentes, expressemos e amigáveis quando em repouso, e espelhavam fielmente os variados estados de espírito da grande alma que olhava através deles. Normalmente ele era solene, calado e digno, porém nas grandes ocasiões movia-se na multidão como um Titã entre Liliputianos, e o que dissesse era lei.

Quando se levantava para falar, em reuniões, ou para oferecer conselho, todos os olhos se voltavam para ele, e então frases profundas, sonoras e eloqüentes fluíam de seus lábios assim como trovões de cataratas fluindo continuamente de fontes inexauríveis. Suas diretrizes soavam tão nobres como teriam soado aquelas do mais cultivado chefe militar que estivesse no comando das forças de todo o continente. Nem sua eloqüência, nem sua dignidade ou sua graça haviam sido adquiridas. Elas eram tão próprias da sua personalidade quanto as folhas e as flores o são em um pessegueiro em flor.

Sua influência era maravilhosa. Ele poderia ter sido um imperador, mas todos os seus instintos eram democráticos, e ele comandava os seus leais cidadãos com suavidade e com paternal benignidade.

Ele sempre era alvo de especial atenção pelo homem branco, principalmente quando sentado à sua mesa. Era nessas ocasiões que ele demonstrava, mais do que em qualquer outro lugar, o cavalheirismo que lhe era genuíno.

Assim que o Governador Stevens chegou em Seattle e disse aos nativos que tinha sido indicado com comissário para assuntos indígenas para o território de Washington, estes lhe prepararam recepção frente dos escritórios do Dr. Maynard's, na margem próxima da Rua Principal - Main Street. 

A baía enxameava de canoas enquanto a margem esta tomada por uma morena e movimentada massa humana. Quando o timbre de trombeta da voz do velho cacique espalhou-se sobre a imensa multidão como o rufar de um tambor, formou-se um silêncio tão instantâneo e perfeito como aquele que segue o crack do trovão em um céu limpo.

Sendo então apresentado à multidão nativa pelo Dr. Maynard, em um tom conversacional, direto e objetivo, o Governador deu imediatamente início a uma explanação sobre sua missão, que é conhecida demais para que requeira recapitulação.

Quando ele se sentou, o cacique Seattle levantou-se com a dignidade de um senador que carrega em seus ombros a responsabilidade sobre uma grande nação.

Colocando uma mão sobre a cabeça do Governador, e lentamente apontando para o céu com o dedo indicador da outra, em tom solene e impressionante, começou seu memorável pronunciamento.

Fonte: "Trechos de um diário: O Cacique Seattle: Um cavalheiro por instinto". 10º artigo da série “Primeiras Reminiscências” - Seattle Sunday Star, 29 de outubro de 1887 do articulista Henry Smith (tradução livre, pela equipe de Floresta Brasil)




CARTA DO CACIQUE SEATTLE



“O Grande Chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar a nossa terra.

O Grande Chefe assegurou-nos, também, de sua amizade e benevolência. Isto é muito gentil de sua parte, pois sabemos que não precisa de nossa amizade.

Vamos, porém, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O Grande Chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz, com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano.

Minha palavra é como as estrelas – elas não empalidecem.

Como poder comprar ou vender o céu ou o calor da Terra?
Tal idéia nos parece estranha.

Se não somos os donos da pureza e do frescor do ar ou do resplendor da água, como é possível comprá-los?


Performance dos Índios Canadenses em sua colorida dança tribal.
 Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo reluzente do pinheiro, cada punhado de areia das praias, cada véu de neblina na floresta densa, cada clareira e cada inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na memória do meu povo.


A seiva que circula nas árvores carrega consigo as recordações do Homem Vermelho.



O Homem Branco esquece a sua terra natal quando, depois de morto, vai vagar por entre as estrelas.



Nossos mortos jamais esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe do Homem Vermelho. Somos parte desta terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia – são nossos irmãos. As cristas rochosas, os sulcos úmidos das campinas, o calor que emana do corpo de um mustang, e o Homem – todos pertencem à mesma família.



Portanto, quando o Grande Chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós.



O Grande Chefe manda dizer que irá reservar para nós um lugar em que possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Por conseguinte, iremos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não vai ser fácil. Esta terra é sagrada para nós.



Esta água brilhante que corre nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue de nossos ancestrais.



Se te vendermos a terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos conta os acontecimentos e as recordações da vida de meu Povo.



O murmúrio d’água é a voz de meu pai, de meus antepassados.


Os rios são nossos irmãos, pois saciam nossa sede. Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás de lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são nossos irmãos e teus também. Portanto, terás de dispensar aos rios a afabilidade que dedicarias a um irmão.



Aqui está  um símbolo do glorioso passado da Nação Canadense. As montanhas do canadá que abrigam esses índios, resplandecem por seus famosos tons avermelhados e o grande chefe Aguia pequena faz parte de uma das tribos mais espetaculares dessa nação pela profusão de cores que são a marca registrada dessas tribos Indigenas.


Sabemos que o Homem Branco não compreende o nosso modo de viver, os nossos costumes. Para ele, uma porção de terra é igual a outra, tem o mesmo significado que qualquer outra, porque ele é como um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga. E, depois que a conquista, ele vai embora, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e não se incomoda. Arrebata a terra das mãos de seus filhos, e não se importa. Ficam esquecidos a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança. Ele trata a sua Mãe – a Terra – e seu Irmão – o Céu – como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelhas ou miçangas cintilantes.

Sua voracidade arruinará a Terra, deixando para trás apenas um deserto.

Não sei. Nossos modos de vida, nossos costumes, diferem dos teus. A visão de tuas cidades fere os olhos do Homem Vermelho. Mas, talvez, isto seja assim por ser o Homem Vermelho um “selvagem” que de nada entende.

Não há sequer um lugar calmo nas cidades do Homem Branco. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um inseto.
Mas, talvez, assim seja por ser eu um “selvagem” que nada compreende.

O barulho parece apenas insultar os ouvidos.

O território é o corpo de uma nação.

E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do curiango* ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo ou de uma lagoa?

Sou um Homem Vermelho, e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de um lago e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro.

O ar é precioso para o Homem Vermelho, porque todas as criaturas respiram e o compartilham em comum – os animais, as árvores, o homem.

O Homem Branco parece não perceber, nem sentir, o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido.

Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que ele sustenta.

O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro.

E se te vendermos nossa terra, deverás mantê-la reservada, como um santuário, um lugar em que o próprio Homem Branco possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância das flores silvestres das pradarias.

Assim, pois, vamos considerar tua oferta para comprar nossa terra.

Se decidirmos aceitar, farei uma condição: o Homem Branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.

Sou um “selvagem” e desconheço que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões* apodrecendo nas pradarias, abandonados pelo homem branco que os abateu a tiros disparados de um trem em movimento.

Sou um “selvagem” e não compreendo como um fumegante cavalo-de-ferro* possa ser mais importante do que o bisão que, nós os índios, sacrificamos apenas para o sustento de nossas vidas.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito, porque tudo quanto ocorrer aos animais logo acontecerá com o homem. Tudo está interligado.

Deves ensinar a teus filhos que o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados. Para que tenham respeito à terra, ao país, conta a teus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo; que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa Mãe. 

Se pensas que és um grande homem e melhor do que os outros da tribo, vás a floresta e diante de um imenso pinheiro verás que grande homem és.

Tudo quanto ocorrer com a terra, recairá sobre os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

De uma coisa sabemos: a terra não pertence ao Homem. É o Homem que pertence à terra. Disto temos certeza: todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Há uma ligação em tudo.

Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida; ele é meramente um de seus fios. Tudo o que ele fizer ao tecido da vida, a si próprio fará.

Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias – eles não são muitos. Mais algumas horas, mesmo uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes nações peles-vermelhas que viveram nesta terra, ou que têm vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

Nem o homem branco, cujo Deus com ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ficar isento do destino comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa temos certeza - e que o homem branco venha, talvez, um dia a descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que O podes possuir do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra, mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira e é igual Sua piedade, Sua compaixão, para com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida e preciosa por Ele e causar-lhe dano ou ferí-la é cumular de desprezo seu Criador. Os brancos também passarão. Talvez mais cedo do que todas as outras raças.

Continua poluindo a tua cama e hás de acordar uma noite sufocado pelos próprios dejetos.

Porém, ao perecerem, vocês brilharão intensamente, com fulgor, abrasados* pela força do Deus que os trouxe a esta terra e que, por algum desígnio, alguma razão especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho.

Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas do odor de muita gente e a vista das velhas colinas obstruída por fios que falam*.

Onde ficará o emaranhado da mata? Terá acabado.

Onde estará a águia? Irá acabar.
Indio canadense com sua vestimenta de guerra.


 Restará dar adeus à andorinha e à caça.


O fim da vida e o começo da luta para sobreviver.



Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã.

O primogênito da tenda é o chefe da tenda mas quando se torna fraco com a idade precisa de uma razão para viver.


Somos, porém, “selvagens”. Os sonhos do homem branco são para nós ocultos. E por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometeste. Lá, talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois de o último Homem Vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas florestas e praias, porque nós as amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.



Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse. E com toda a tua força, o teu poder e todo o teu coração, conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos.



De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.”

Performance dos Índios Canadenses em sua colorida dança tribal.


Notas

(*) 1) – Curiango – ave noturna
2) – Bisão – búfalo selvagem das pradarias norte-americanas
3) – Cavalo-de-ferro - trem
4) - “... Vocês brilharão intensamente, com fulgor, abrasados...” - Referência ao holocausto nuclear?
5) - “... fios que falam...” – Telégrafo
Traduzido dos fragmentos publicados na revista “Norsk Natur” 10 (1), 1974, Oslo, Noruega, e United Nations Environment Programme – Media Pack’76, por Roberto Tamara. Adaptado, também, da tradução de Irina O. Bunning.

Ouvindo o familiar som da  grande floresta Canadense, o chefe Índio veste a sua tradiconal indumentaria para uma celebração especial.
A presente carta do Chefe Seatle ao Presidente dos EUA, considerada como a declaração mais bela e profunda já feita até agora a respeito da defesa da Vida na Terra, foi lida por Russell Peterson, Presidente do Conselho Federal de Qualidade do Meio-Ambiente, dos Estados Unidos, durante a reunião da Associação Americana para o Progresso da Ciência, em Nova York, em maio de 1975. Russel Peterson observou que “da nossa moderna perspectiva – 120 anos depois (Obs.: Hoje, em 2005, são 150 anos) - a carta de Seattle parece ser uma profecia expressiva, se não de todo desconcertante”. Este texto foi distribuído pela ONU no Programa para o Meio-Ambiente.
Sobre o assunto de terras dos índios, manifestou-se Michael Black no artigo “Enterrem meu coração em Wounded Knee”, publicado em “The Mother Earth News”, número 12, novembro de 1971, North Madison, Ohio, nos seguintes termos:
“... o índio percorre as suas terras tribais pacificamente e com simplicidade, com grande reverência pelo país e seus habitantes. Depois, vem o homem branco, aos tropeções, para alcançar os campos auríferos da Califórnia ou as ricas glebas dos altiplanos. O índio não passa de coisa irritante, de uma barreira incômoda que tem que ser removida e posta de lado, se é que se deve cumprir o destino manifesto. As boas terras são roubadas e designadas como reservas as terras que o homem branco desprezou ou já saqueou. Aqueles que não querem ir para as reservas são caçados impiedosamente. Às vezes, mesmo aqueles que haviam concordado em ir, são atacados (por exemplo, Sand Creck) e ocorrem massacres sobre os quais se estende o manto de segredo e que tornam My Lai (aldeia vietnamita destruída, junto com todos os habitantes, por um destacamento do Exército dos EUA, durante a guerra do Vietnã, cujo nome entra na história como símbolo da intolerância racial, política e ideológica) parecer obra de amadores. Uma vez dentro da reserva, o índio é freqüentemente forçado a se mudar outra vez, para mais longe da sua antiga terra natal, depois que é descoberto ouro ou se planeja uma estrada conveniente para a Costa Ocidental. Dentro da reserva, ele é alimentado com os restos de comida do homem branco pelos supervisores corruptos e inescrupulosos e as palavras de desabafo significam a morte”.

“É claro que o crime dos nossos antepassados é de um tipo como nunca antes o mundo chegou a ver. Não foi o crime de um louco só, como Hitler ou Stalin. Foi um crime perpetrado por uma nação inteira... uma nação que, não se contentando em subjugar pela força um povo, apressou-se a destruir um modo de vida inteiro...”

“Para uma nação poderosa como a nossa, conduzir uma guerra contra uns poucos nômades que lutam pela vida, em tais circunstâncias, é um espetáculo dos mais humilhantes, uma injustiça sem paralelo, um crime nacional dos mais revoltantes que mais tarde fará descer sobre nós ou nossos pósteros o julgamento do Céu” – Black Whiskers Sanborn, 1867. (Sanborn, junto com um punhado de outros, foi o amigo mais achegado que os índios em qualquer época tiveram no meio dos homens brancos).

“Vender a terra?... Por que não vender o ar, as nuvens, o mar imenso?”- Tecumseh, Chefe do povo Shawnee (1768-1813).

“Não se nos afiguravam como “selvagens” as grandes planícies abertas, as belas colinas onduladas e os rios serpenteando através do emaranhado da vegetação. Só para o homem branco, a Natureza não passava de sertões selvagens e somente para ele o país estava “infestado” de animais “ferozes” e de gente “selvagem”. Para nós tudo era mansidão.
A terra era generosa e por todos os lados havia bênçãos do Grande Mistério. Só quando vieram os homens barbudos do Leste e, com a fúria brutal, passaram a cumular de injustiças a nós e as famílias que amávamos, ela – a terra, tornara-se para nós selvagem. Foi quando os próprios animais da floresta começaram a fugir com a aproximação do homem do Leste que principiou para nós o Oeste Selvagem”. Cacique Luther Urso Em Pé, dos Oglala Sioux.

“Nós nos contentávamos em deixar as coisas permanecerem como o Grande Espírito as havia feito. Eles, os homens brancos, não se contentavam e até mudariam o curso dos rios se estes não lhes servissem como eram”. (Um índio Nez Percé).


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