É preciso que se entenda de uma vez por todas que os crimes de caixa 2 e a persecução de fundos provenientes de obras públicas para reforço do caixa dos partidos, é uma prática comum que permeia toda a atividade política no Brasil a muito tempo. Isso é assim inclusive em países desenvolvidos sob o manto legal das doações de campanhas. Normalmente quem doa são empresas que se beneficiam de uma forma ou de outra da atividade parlamentar. Querer fechar os olhos a isso é querer manter-se cego.
A saída para isso é a reforma política que retire poder do congresso, para permitir que o governo possa governar sem ter que fazer composições políticas com partidos aliados. Enquanto os partidos puderem negociar o seu apoio ao governo, para viabiliza-lo, e aprovar projetos do governo, esses sempre reivindicarão e se utilizarão de cargos e ministérios para auferir vantagens indevidas.
Outra forma de coibir isso é acabar com as campanhas políticas. Os políticos poderiam fazer debates, e se apresentar na TV em horários determinados e fazer suas propagandas. Os eleitores iriam dessa forma avaliar as plataformas de cada um, e assim não precisariam gastar com campanhas políticas.
Para piorar, a Câmara aprovou uma lei para colocar a Lava Jato contra a parede. A "Lei da Intimidação" presta-se a ameaçar juízes e promotores. Embora o Ministério Público Federal tenha o compromisso de máximo empenho para seguir, de modo responsável, investigando, processando e punindo a grande corrupção, a Lei da Intimidação impedirá essa atividade.
Da forma como ocorre hoje, a câmara dos deputados vai procurar por todas as formas frear a Lava Jato porque todos tem culpa no cartório e não desejam ser investigados. Dessa forma, e também porque o Juiz Sérgio Moro instituiu uma verdadeira ditadura de Curitiba, prendendo e conduzindo coercitivamente autoridades, ex autoridades e cidadãos comuns, inclusive mandando a polícia federal invadir e prender a polícia do Senado, estabelece-se uma verdadeira guerra entre poderes, e como o poder legislativo tem poder de criar e influenciar leis, vai sem dúvida determinar os rumos dessa investigação com pressão ou sem pressão.
A Câmara dos Deputados, na madrugada de ontem, esvaziou o pacote anticorrupção, traindo a legítima expectativa de milhões de brasileiros que esperam uma reação do Congresso contra os níveis jamais vistos de corrupção relevados pela Lava Jato.
Mostraremos que, caso aprovada no Senado e sancionada pelo presidente Temer, já não mais haverá condições do legítimo exercício da função do Ministério Público e do Judiciário na Lava Jato. Primeiro, um rápido contexto.
Há duas semanas, circulou um texto anônimo de que seria aprovado com urgência na Câmara um projeto que anistiaria a corrupção relacionada a acordos de leniência. Houve mobilização, inclusive com entrevista coletiva para informar à população de que se pretendia enterrar boa parte da Lava Jato. Os articuladores da manobra, que segundo a imprensa incluíam o líder do governo na Câmara, André Moura, desistiram.
Na semana passada, surgiu outro texto circulando e com ataque mais grave. Sob o disfarce de perdão ao "caixa 2", crimes de corrupção e lavagem de dinheiro da Lava Jato seriam anistiados, inclusive de pessoas já condenadas e presas. Os encarcerados pela Lava Jato sairiam pela porta da frente da delegacia, e nós, as autoridades do caso, constrangidos, pelos fundos. Fomos a público, mais uma vez, acusar o abuso. Retrocederam.
Nesta semana, a força-tarefa, cansada das ameaças e ataques contínuos à Lava Jato, novamente "denunciou" o mais grave atentado já cometido pelo Congresso contra a operação até agora: a aprovação pela Câmara da "Lei de Intimidação", apresentada pelo deputado federal Weverton Rocha (PDT-MA), e aprovada, na calada da noite, por voto de 313 deputados, ampla maioria. Lei da mordaça. Essa lei impediria que defendêssemos a investigação indo a público e informando a população sobre as manobras realizadas. Ela ressuscita a "Lei da Mordaça" contra promotores e procuradores. Impede que falemos com a imprensa sobre processos e investigações.
Cabe lembrar que um dos pilares centrais da Lava Jato, a par das colaborações premiadas e da cooperação internacional, foi a comunicação social. Não é à toa que querem calar os investigadores. Não será possível falar à imprensa, ou mesmo postar informações em redes sociais, porque passará a ser crime "expressar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de atuação do Ministério Público ou juízo depreciativo sobre manifestações funcionais, em juízo ou fora dele".
Detalhe: os advogados de poderosos réus poderão continuar bradando na imprensa supostos abusos e construindo críticas infundadas, sem que possamos fazer qualquer contraponto, desmentir ou esclarecer os fatos.
O mais grave ainda está por vir. Esse projeto revanchista reproduziu proposta apresentada por Paulo Maluf, o PL 265/2007. Com redação idêntica, a nova "Lei da Intimidação" que abre espaço para que o promotor, ou o procurador, seja condenado a uma pena criminal e a indenização quando a acusação contra um político não se comprovar na Justiça.
Além disso, a punição ficará sujeita à "interpretação" de palavras por demais vagas, o que é um atentado contra a independência do Ministério Público. Ora, o próprio Ministério Público, ao fim da ação, cível ou criminal, deve requerer a improcedência da ação se assim indicarem as provas no final da instrução.

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